Por que devemos criar nossos filhos numa redoma?

08/06/2018

 

 

Quando eu era adolescente, isso lá na década de 90, ouvia muito da minha mãe que estava me criando pro mundo. Que quem criava filhos em uma redoma não os preparava direito para a vida. Este valor ficou dentro de mim placidamente, até esse exato momento, quando tive uma longa conversa com o Professor Valdemar Setzer, aqui no Flauta Mágica.

 

Defensor categórico da infância e da juventude, especialista em estudos sobre o impacto da tecnologia na educação infantil e desenvolvimento humano, o Professor foi convidado pela Escola para uma noite de conversa com os pais em evento aberto à comunidade. E, com um pensamento radical, provocou importantes questionamentos sobre a necessidade de proteger a infância para as nossas crianças.

 

Em uma séria conversa antes do evento, o Professor Valdemar nos concedeu uma entrevista exclusiva respondendo seis perguntas chaves e ainda dando receitinha de bolo de como agir com crianças e adolescentes que estão usando descontroladamente os eletrônicos. Confira abaixo os principais apontamentos e aceite de bom grado seu convite à reflexão.

 

 

Até que ponto a tecnologia é um avanço? Quando ela passa a ser um retrocesso?

 

No meu entender a função da tecnologia é libertar o ser humano das forças interiores e exteriores da natureza, ou seja, quando eu preciso expandir meus limites e me dar liberdade. Como para a locomoção, por exemplo, com o uso do carro. Acontece que as tecnologias tem efeitos negativos, pois ela também pode nos escravizar, pois em geral as pessoas usam as máquinas sem consciência. E isso é perigoso pois existem certas máquinas que vão contra o desenvolvimento da humanidade. A televisão é um exemplo.

 

A televisão é um veículo de condicionamento para vender produto. Um grande estudo publicitário conta que uma grande e famosa rede de alimentos usou 1 bilhão e 700 reais em propaganda logo no começo da era da televisão. E isso é fácil de se entender, pois o condicionamento é real.

 

A técnica é de exibir muitas mudanças de imagem por minuto, são em geral de 15 a 25. Em propaganda é mais rápido ainda. Esses pulsos são muito fortes e induzem um estado de sonolência no telespectador, produz inconsciência. Por isso exibem tanta violência e erotismo, por isso exibe a besteira que quiser, por que estimulam os sentimentos. O pensamento não é livre, não existe reflexão, o pensamento se automatiza e gera um estado de condicionamento extremamente eficaz. As pessoas ficam realmente com seu subconsciente envolvido pelas mensagens exibidas.

 

 

"A televisão é um veículo de condicionamento e a internet provoca o vício da distração. O prejuízo terrível disso é que as pessoas perdem a capacidade de concentração, de pensar e refletir."

 

 

Hoje em dia, além da televisão, existe a internet. A internet não afetou o consumo da televisão, mas da leitura. E aí somatiza o problema. A internet também retira a consciência, mas por meio da distração, pois a pessoa se vicia em se distrair. E o prejuízo terrível disso é que as pessoas perdem a capacidade de concentração. Está mais que provado cientificamente essa realidade. A boa notícia é que se o adulto começar a disciplinar o uso da internet, usando por períodos limitados e somente para coisas úteis, a pessoa pode voltar a ter a ter essa habilidade.

 

A internet vicia. Não existe nada mais viciante do que a internet. Vou dar um exemplo: Garanto que várias pessoas ao acordar, antes de ir ao banheiro, olham se chegou alguma mensagem no celular. Isso é vício. Não existe nada mais perigoso hoje do que a internet. E por isso existem incontáveis centros no mundo de desintoxicação da internet. Em São Paulo tem um no Hospital das Clínicas, que atende crianças, adultos e idosos. Leva-se, em média, 14 semanas para realizar a desintoxicação da dependência digital.

 

A internet tem uma relação de dependência psíquica para muitas pessoas pois ela excita ilusões. Além disso ela provoca a inveja, a vaidade e, facilmente, é um gatilho de crise para quem sofre de depressão, pois na internet, tudo é maravilhoso. As pessoas só colocam mensagens com o que elas gostariam de ser e não o que elas são, publicam apenas as coisas boas. Uma professora de Berlim investigando o que provocava depressão - não patológica - descobriu que o fator mais importante era inveja. E as redes sociais são perfeitas para isso.

 

 

"As redes sociais produzem um isolamento. É um retrocesso das relações sociais e humanas. As pessoas sabem responder mensagens mas não sabem conversar olhando nos olhos uma das outras. Isso é a maior aberração e um prejuízo sem precedentes."

 

 

Isso é claramente um retrocesso das relações sociais e humanas. Já está mais que provado cientificamente que as redes sociais provocam um isolamento. E não é difícil de entender. As pessoas se acostumam tanto em fazer um relacionamento pela internet que não conseguem mais se relacionar pessoalmente: olham uma pessoa no olho e não sabe o que falar! Agora, se essa pessoa mandar uma mensagem ela sabe o que responder. Ou seja, uma aberração total.

 

Estamos falando aqui de um acentuado prejuízo para o relacionamento social, para a sensibilidade social. Andar com o celular no bolso é a mesma coisa que andar com uma máquina caça níquel no bolso. Estamos sendo controlados pelo impulso de olhar se "ganhamos" alguma coisa. Você observa facilmente esse poder de destruição nas famílias vendo num restaurante pais e filhos totalmente desconectados entre si, utilizando seus aparelhos eletrônicos. 

 

 

Cientificamente, pela sua observação e estudo, temos pela frente um futuro otimista ou pessimista em termos de relações humanas e sociais?

 

Pessimista! Os smartphones apareceram em 2004, os tablets em 2010, a geração que nasceu depois do ano 2000 ainda não é adulta. E é essa geração que nasceu com estes aparelhos. Nós não sabemos o que vai acontecer com essa geração! A minha previsão é das piores possíveis.

 

Em termos de massa da humanidade eu perdi totalmente a esperança. Mas eu tenho esperança nos indivíduos, por isso dou palestra. Se cada um puder reagir, até certo ponto, já temos alguma coisa. Se eu conseguir convencer um pai que a situação é extremamente grave, que internet não é pra criança e pra adolescente - e com provas, já temos um caminho.

 

"Estamos numa época gloriosa do mundo no desenvolvimento dos direitos humanos. A liberdade também já é estabelecida. Mas nos falta a fraternidade. E a força contrária para isso acontecer está no fato dessa geração ser criada por aparelhos eletrônicos que provocam uma completa dessensilização social."

 

Quem deixa criança e adolescente usar internet ou não conhece a literatura científica ou está acomodado numa situação que é visivelmente ruim. Em crianças não é complicado. Basta tirar. Não há nenhuma necessidade nem de desenhos animados nem de uso da internet. Criança não tem maturidade. Não tem formado ainda seu pensamento crítico. Os desenhos animados não colaboram em nada no desenvolvimento do imaginário, pois apresentam uma caricatura do mundo. Uma caricatura muito feia, um veneno para a alma da criança. A criança precisa desenvolver amor, veneração pela natureza, admiração pela vida, habilidades sociais. Ela não precisa de alienação ou distração, é exatamente o oposto disso, ela necessita de foco e de estímulo para o desenvolvimento da sua sensibilidade.

 

Com adolescentes, vai existir um conflito. Apesar de eles não terem maturidade já tem uma semente de pensamento crítico e os pais vão precisar de paciência, persistência e argumentos sólidos.

 

Os videogames são um capítulo importante desse cenário também. Eles estão no mundo dos jovens como se fosse parte de suas vidas de forma plena, como se os games fossem algo específicos de adolescentes, uma brincadeira de sua época. Mas o objetivo original dos videogames violentos é a dessensibilização social. Eles não são brinquedos. Foram criados dentro do exército para treinar os soldados a não sofrerem em suas atividades, a se tornarem mais insensíveis em suas batalhas. E o que isso representa estando dentro das casas, dentro da rotina dos jovens de hoje, de forma tão intensa? Muitas pesquisas apontam para as causas e consequências da dessensibilização social das novas gerações. E ninguém consegue se dar conta desse perigo.

 

"Quem deixa criança usar a internet, games ou assistir televisão está acomodado numa situação visivelmente ruim. Criança não tem maturidade nem pensamento crítico. A criança precisa desenvolver habilidades sociais e estimular sua sensibilidade."

 

Estamos numa época gloriosa do mundo onde se vê fortemente o crescimento dos diretos humanos, onde as sociedades estão mais preocupadas e atentas com essa inclusão. Também o conceito de liberdade está muito bem enraizado, desde a época da libertação dos escravos. E esses dois fatores já são leis. Se você infringe a liberdade de alguém, é crime. Se você infringe as questões dos direitos humanos, também é crime. Agora, se alguém tropeça na rua e cai não é crime você passar pelo lado dela e não ajudar. Nos falta então desenvolver a fraternidade.

 

Liberdade e igualdade foram dadas como uma graça para a humanidade. A fraternidade já precisa ser desenvolvida conscientemente, com esforço. Esse é o caminho positivo para o desenvolvimento da humanidade. E as forças contrárias para o desenvolvimento da fraternidade na humanidade é exatamente essa dessensibilização social provocada pelos aparelhos eletrônicos com suas redes sociais, internet e games.

 

A distração e o vício de se distrair é reversível para adultos, pois em teoria toda essa geração desenvolveu a sensibilidade social. Mas crianças e adolescentes de hoje não tem como recuperar amanhã essa habilidade, pois elas não tiveram acesso ao desenvolvimento dela.

 

 

Por que escolas que não usam tecnologia como uma ferramenta central do processo de aprendizagem são mal vistas? Qual sua opinião? Elas são alternativas ou deveriam ser a regra ao invés da exceção?

 

Professor que passa trabalho para crianças e adolescentes usarem a internet está cometendo um crime, um crime contra a infância e a juventude. Porque estão colocando essas crianças e adolescentes em perigo. E eu nem estou falando dos predadores.

 

Se a gente educa uma criança ou adolescente pra ver bem uma televisão, a usar bem a internet, a jogar um game de forma moderada, estamos tratando eles como adultos, como seres críticos plenos. E eles não são ainda. 

 

E não estamos falando de utopia, mesmo que aos olhos do mundo contemporâneo todo esse discurso pareça utópico, pois vai contra a norma geral. Mas eu reforço: Nem tudo que é normal é saudável. Pelo fato que quase todo mundo usar uma coisa, não significa que é sadio. Temos que reagir. O mundo inteiro está enfrentando uma miséria social que precisa ser revertida.

 

 

"A pessoa só está preparada para usar internet, videogames e outras tecnologias dessa categoria com 17 anos. Precisamos aceitar essa realidade. Nem tudo que é normal é saudável. Ter cárie é normal, mas não é saudável. Pode parecer normal os jovens usarem internet o tempo todo, mas não é. Temos que reagir."

 

A idade adequada para usar aparelhos eletrônicos é quando a pessoa está madura criticamente, ou seja, com 17, 18 anos. E para isso acontecer de forma coerente, os adultos precisam também aprender a usar conscientemente os eletrônicos, para que as crianças e adolescentes tenham exemplos saudáveis e possam desenvolver esse pensamento crítico com lucidez.

 

Hoje temos um modismo e um comodismo doentio com os eletrônicos que envolve todo o contexto do que é melhor para a educação dos filhos, que fica à margem de tudo que é bom. As famílias abrem exceções aos celulares, televisão e tudo mais porque já virou um hábito.

 

Por isso recomendo que todas as escolas deveriam ser em períodos integrais, livres de eletrônicos. Porque em casa, percebemos que está cada vez mais difícil não estimular as crianças a avançar o sinal nesse contexto. Pode-se também criar comunidades de pessoas e famílias que estão realmente interessadas no bem estar de suas crianças e lhes promovam um ninho de afeto, livre de todos esses perigos. Uns combinam com outros um passeio, uma vivência e a questão de colocar um tablet na mão da criança se acaba.

 

Mas isso indica um ponto dificílimo de lidar no mundo dos adultos: dá trabalho. E aí que está o centro de tudo: educar dá muito trabalho.

 

 

 

Que tipo de conselho daria para os pais que hoje estão aflitos com a liberação do uso de celulares, tabletes e games para seus filhos? Ser radical é o caminho?

 

Eu sou radical sim. Os males que eles estão causando ultrapassam em muito os benefícios. Por exemplo, centenas de milhões de crianças e adolescentes estão passando por uma experiência que não se sabe o resultado.

 

A alienação é o menor dos problemas. Suponha que a criança não use os meios eletrônicos, ela vai ficar diferente dos outros. Quando entrar na puberdade será diferente e isso é o que todo adolescente menos quer no mundo, se sentir diferente, excluído. Então é lógico que ele vai se queixar, espernear, criando aí um problema psicossocial.

 

Eu passei por isso com uma de minhas filhas. E vi acontecer com meus netos. A minha filha mais velha chegou um dia da escola se sentindo muito mal porque as amigas falavam de programas que ela desconhecia e então pediu para ver televisão. Não tínhamos esse aparelho em casa. Minha esposa e eu colocamos na balança e criamos nossos filhos sem televisão.

 

"A televisão é a porta de entrada para todos os outros aparelhos eletrônicos. Temos que tirá-la do centro da nossa casa."

 

Uma dica que eu dou para quem não quer ser radical é não ter televisão no centro da sala de estar. Não utilizar ela como som ambiente na casa. É preciso que as pessoas se acostumem com o silêncio e reaprendam a conviver entre si, então a televisão não pode ser um personagem central na rotina doméstica.

 

Hoje, infelizmente, os adolescentes criaram uma necessidade de convívio pela internet, principalmente por conta do WhatsApp. Eles combinam eventos e detalhes de ocasiões por programas virtuais e, assim, fica mais complexo excluir os jovens do mundo virtual, porque não seria apenas uma exclusão, mas uma brecha na socialização entre seus pares.

 

A receita para resolver isso é estabelecer uma co-dependência. Ou seja, os filhos não tem celular, mas usam o dos pais, de forma absolutamente controlada e não permissiva. Um filho, por exemplo, pode passar como número do whatsapp o da mãe, e esta estabelece um filtro nas mensagens.

 

E aí algumas pessoas me dizem que defendo que se crie os filhos numa redoma. E é isso mesmo. Porque estamos sendo cozinhados aos poucos.

 

 

 

* O Professor Valdemar Setzer nasceu em 1940 em São Paulo é casado e tem 4 filhos. Graduou-se em Engenharia Eletrônica no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) em 1963 e fez doutorado em Matemática Aplicada pela Escola Politécnica da USP (1967). Fez livre-docência (1976) no Depto. de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP, onde aposentou-se em 1995. Tem exercido extensa atividade como palestrante, sobre história e aspectos filosóficos da computação, meios eletrônicos e educação e questões filosóficas da tecnologia. É membro da Sociedade Antroposófica desde 1971.

Contato: https://www.ime.usp.br/~vwsetzer/#di

 

 

 

 

Compartilhe no Facebook
Compartilhe no Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Ser Waldorf, um relato de ex-alunos

30/03/2017

1/8
Please reload

Posts Recentes

15 Apr 2019

7 Apr 2019

28 Aug 2018

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square

© 2020 por Escola de Educação Infantil Jardim Waldorf Flauta Mágica

Endereço: Rua Alexandre Herculano, 77 - Boqueirão - Santos/SP - Brasil

Telefones: +55 13 3222-4309 e 13 3040-4852 

Email: secretaria.flauta@gmail.com

  • Facebook - White Circle
federação_das_escolas_waldorf_do_brasil.